Diretores De Empresa Não São Bichos Papão

Há executivos que já chegam mal humorados no escritório. 0 trabalho levado para casa, na noite anterior, não foi executado. São workaholics e lamentam que o dia só tem 24 horas. Começaram o dia preocupados com os problemas que aguardam solução. Com certeza não dormiram bem. No café da manhã, tentam  ler as notícias econômicas. Descontadas as  maravilhas sobre o desempenho do real, verificam que o custo Brasil não dormiu durante a noite. Assim, ao sair do elevador. se esquecem de cumprimentar as secretárias. Mal se instalam, gritam pelo cafezinho, brigam com o fornecedor pelo telefone e chamam a atenção do  gerente mais próximo.

Outros executivos não precisam de motivos especiais para se­rem arbitrários e temperamentais. Os funcionários se entreolham e perguntam:

  • Como ele está hoje?
  • Não sei, mas a recepcionista comentou que já chegou com os nervos à flor da pele. É bom se preparar!

Uma coisa é ser respeitado, outra é ter funcionários “apavorados” com a simples chegada do chefe. É  melhor ser um líder democrático ou até carismático do que um chefe arbitrário e nervoso. De que adianta gritar e envergonhar os subalternos? Eles  tremem quando ouvem essa voz exigente, agressiva que só sabe criticar e brigar.  Quando executam as tarefas, o fazem por pressão e necessidade,  não pelo prazer de fazer um trabalho bem feito. 

Os meus amigos executivos trabalham demais, desdobrando-se em muitas frentes, especialmente quando têm várias funções e precisam tomar decisões  rápidas e ainda participar de infindáveis reuniões. Quando têm um temperamento normal, digamos, o seu  staff deve ser  compreensivo e tolerante. especialmente em épocas de crise, quando a matriz costuma solicitar mais e mais relatórios, prevendo o fechamento de filiais inoperantes. Ser tolerante e paciente é uma rua de duas mãos!

Uma vez, apresentei um jovem economista a uma consultoria de engenharia. Em duas semanas, fez amizade com toda a equipe e mostrou-se interessado em colaborar com os vários grupos de trabalho. A diretoria estava satisfeita; até então, nenhum assessor tinha se esforçado tanto. 

0 namoro com a empresa durou pouco. A família do jovem soube que estavam gostando de seu trabalho. Impressionada, descobriu que não podia desperdiçar aquele talento que, até ingressar na atual empresa, era “aspone” em uma das empresas da família. 0 chefe supremo mandou recados,  através de outros sobrinhos, para que Herberto voltasse à empresa familiar, onde "pertencia". Finalmente, mandou oferecer uma gerência à ex "ovelha negra", deixando um rastro de lamen­tações no pedido de demissão  do rapaz.

A empresa me chamou novamente. Pediu um outro assessor, com as mesmas qualificações do primeiro. Eu sa­bia que seria difícil apresentar alguém com o mesmo perfil, pois até gêmeos univitelinos se diferenciam entre si, mas enfim, fiz o que pude e  apresentei um outro profissional, que foi contratado. Tudo ia  bem, até receber o telefonema amargo do  Diretor Adminis­trativo:

  • Sinto muito, mas tive que despedir  o segundo assessor.
    Agüentei o quanto pude. Não vou lhe contar os problemas do cotidiano, por que ninguém aprende tudo em um mês, mas olhe, não sou nenhum bicho-papão.
  • Pelo amor de Deus. 0 que  houve?
  • Ao chamar o rapaz, pela manhã, ele demorava 20 minutos para aparecer.
    Quando vinha, suava, tremia da cabeça aos pés e não conseguia responder às minhas perguntas. Procurei saber o que estava acontecendo e nada consegui. Veja,  tenho filhos adultos, que trabalham na França, e sei que não é fácil trabalhar num ambiente  novo, mas estou certo que trato to­dos bem e, com certeza, os meus funcionários não têm medo de mim...

Até então, eu não tinha a menor idéia de que o assessor fosse um caso psiquiátrico. Quem sabe, talvez a multi onde trabalhara antes pagava os honorários do psicanalista? Também era  possível que estivesse atravessando uma crise pessoal, mas não é justo culpar os chefes pelas nossas neuroses de todos os dias. Tratei de pedir desculpas e providenciar uma reposição.

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