FOMOS COLEGAS DE BERÇÁRIO

Muitos se lembram daquele utilitário, Gurgel, pesadão, ótimo para estradas, movido a bateria. Os saudosos dirão “Maravilha de carro. Confortável, rápido e seguro”! Assim também comenta a Gonul que se lembra, com saudade e lágrimas nos olhos castanhos, do orgulho que teve ao comprar, à vista, o seu primeiro carro. Recorda-se que, ao sair da loja, ao volante do seu possante azul escuro, estava tão emocionada que passou uma semana com os dedos endurecidos como se estivessem congelados pelo frio do K-2 do Everest.

Batizou o carrinho com o nome de “Francinaldo”, numa festa com sidra gelada, salgadinhos e abraços. Mas isso não bastava; para estar à altura do Gurgel, queria se tornar uma excelente motorista. Assim, contratou um instrutor para ensinar a dirigir e prestar atenção aos motoristas na contramão. Depois de umas 50 aulas (poucas, considerando que tinha chances de se tornar a pior “barbeira” do Rio de Janeiro), resolveu se aventurar na loucura do nosso trânsito diário.

Sem nenhuma experiência prática, acordou num domingo disposta a pilotar o seu “Francinaldo”, tratado a ceras importadas, pomadas com brilho e desodorantes. Esquentou o motor, ajeitou-se no assento e trancou as portas, sem levantar os vidros. Deliciada, embevecida, sorrindo, estava dirigindo a 40 km quando, distraída, levou um susto horrível ao colidir com outro veículo, uma Variant, na pista em curvas da Lagoa Rodrigo de Freitas, sentido Ipanema. Somente quem já bateu se lembra da reação a um desastre: as pernas tremem, o coração dispara, a boca não tem saliva e os pensamento são vagos, incoerentes.

A Variant rodopiou na pista e parou de lado. Com o barulho, o tráfego ficou mais lento. Juntou gente não se sabe de onde e os motoristas apressados espicharam o pescoço para ver melhor. Estava destruída, mas o Gurgel, forte como os cofres de aço das seguradoras, permanecia inteiro. Apavorada, sem voz, a minha amiga viu que o motorista da Variant estava acompanhado de um garoto magro, de uns sete anos, com os olhos arregalados, assustado. Era seu filho.

0s dois motoristas saíram dos carros. Foi quando, trêmula, em estado de choque, Gonul viu, com horror, que a sua vítima só tinha uma perna. Procurou forças na lembrança de uma maratona aquática, quando o nadador que chegou em terceiro lugar também estava desprovido da segunda perna. Gaguejou uma oração em voz baixa: “Deus misericordioso, ajude-me, o homem perdeu a perna por minha causa. O que faço agora ?”

Foram para a delegacia. Afora os danos materiais, ninguém ficara ferido; o homem não tinha uma perna, mas “era de nascença” e comentou que já estava acostumado com o espanto dos bípedes quando saia do carro e pegava as muletas. Desde então, Gonul não colocou mais as mãos no volante do “Francinaldo" que ficou 20 anos na garagem de seu prédio, algumas vezes emprestado a sobrinhos, outras apenas com o motor ligado para não deixar cair a bateria. Acabou vendido, barato, barato, a uma pessoa que, feliz, se orgulha dele até hoje. Enquanto isso, a minha amiga, já conformada, mas traumatizada, não quer mais saber de dirigir nenhum veículo - caminhão, kombi ou carro de passeio.

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