- Garçon, traga-me rapidamente um whisky com gelo. Se não tomar algo forte nesse instante, acho que vou ter um infarto de tanta raiva que sinto. Ainda pego aquele miserável !
- Calma, João, o que está acontecendo? Você está pálido, tremendo e não diz coisa com coisa.
- Esse garçon que não chega! Pensa que o bar é dele para fazer pouco dos clientes!
Mais calmo, depois de entornar dois copos de whisky, praticamente sem respirar, disse aos amigos:
- Vocês sabem que tenho um pequeno laboratório de reprodução humana assistida. 0 trabalho é vagaroso, custa caro (mas eu não acho), os clientes querem filhos, mas na hora de abrir a carteira, dão uma desculpa e correm para pesquisar preços nos concorrentes.
- E que aconteceu para você ficar tão nervoso?
- Precisava de um novo técnico, que apareceu não sei de onde. Foi entrevistado, gostei do garoto. Tinha boas referências, achei que era um cara legal e seria uma boa aquisição para o laboratório. Pedi até que trouxesse todos os documentos – sabem como é, o governo exige - carteira profissional, CPF, RJ, sei lá mais o quê.
- E ele? Recuou, talvez fosse um espião do concorrente.
- Não creio, mas vejam o topete do rapaz: Disse que confiava em mim porque já tinha outro emprego em vista, mas preferia o meu laboratório. Quanta petulância – ele quer trabalhar para mim e eu, que pago os salários de todos, não tenho direito a opinar?
- Passe por cima disso, João. Claro que você o contratou.
- Não. É que na tarde do mesmo dia, um casal pediu a devolução do depósito dizendo que fariam mais uma tentativa de ter um filho “por conta própria”Ainda vou brigar com eles na Justiça, afinal, já gastei por conta e vocês acham que o laboratório vive de quê? Não tive cara de falar com o rapaz. Sei que ele deve ter perdido o outro emprego, mas não tenho nada com isso. Não sou dono do mundo e nem pátio de milagres. Lembrei-me que os gregos, os romanos, todos aqueles guerreiros de outrora não tinham armas de fogo, mas usavam capacetes e escudos contra os inimigos.
E prosseguiu.
- Aí, amigos, resolvi usar o meu escudo invisível de auto-defesa. Mandei a secretária dizer àquele idiota que eu não estava, nunca estaria, que inventasse qualquer outra desculpa. E tem mais: se ele aparecer na minha frente, audacioso como é, vou fingir que não o conheço e me livro de mais um problema.
Os amigos silenciaram. Não queriam perder a amizade do João, mas sabiam que estava errado esse comportamento de proteger os próprios interesses em detrimento dos outros. “No escuro”, sem saber porque nunca mais foi recebido na empresa, o candidato perdera o outro emprego. Desprovido de uma “polpuda” conta bancária, sem outras perspectivas de trabalho, provavelmente trilharia o caminho comum dos desiludidos com o mundo empresarial.