OS BÍPEDES TAMBÉM DEIXAM RASTROS

Difícil é a vida dos postulantes a emprego! Devem fingir que está tudo ótimo e se apresentar serenos nas entrevistas, quando há muito tempo não sabem o que seja um dinheirinho no fim do mês. Precisam ser desembaraçados e se vestir de acordo com o cargo pretendido e ambiente de trabalho. Para impressionar, é imprescindível “acender” os olhos para brilhar até no escuro. Assim, o entrevistador pensará que, ao pisar no hall de mármore, o candidato apaixonou-se irremediavelmente pela empresa.

Preocupados e atentos a eventuais falhas em seus currículos, os candidatos “pisam em ovos” para responder com clareza a todas as perguntas. Às vezes, quando são entrevistados pela psicóloga que vive seu grande momento de fazer um laudo, ouvem perguntas indelicadas, como : “porque você está desempregado?” ou essa preciosidade: “Já houve casos de doenças mentais em sua família?”, antevendo, com rara acuidade, problemas delicados de comportamento social.

Nada passa despercebido ao caçador atento: o cheiro da mata, a direção do vento, o súbito bater de asas dos pássaros e, principalmente as pegadas dos animais que passam informações preciosas sobre o que acontece na mata. Nós, bípedes, também deixamos rastros. Fingimos que vestimos roupas suntuosas quando na realidade estamos nus. E quem não tem majestade, adota uma falsa postura para comunicar ao mundo que é importante. Pois sim! Os verdadeiros fidalgos são discretos; não se pavoneiam e não alardeiam o seu patrimônio aos quatro ventos.

0 entrevistador, aparentemente autoconfiante, também tem dificuldades diante da pressão de encontrar, com urgência, o profissional ideal solicitado pelas chefias. Deve dizer: "Aguarde em casa o nosso telefonema, daqui há duas semanas", quando sabe perfeitamente que aquele currículo será desprezado. Bola de cristal? Ninguém tem. Para analisar o perfil de um candidato, observa-se o seu currículo, gestual e expressões, mas a percepção e sensibilidade do entrevistador, aliadas ao bom senso em não exigir qualidades difíceis de encontrar num ser humano, valem pontos na elaboração de um laudo.

É complicado fazer uma avaliação correta. Um tom de voz errado ou desabafo nos ombros de quem não está disposto a ouvir, podem detonar a possibilidade de um bom emprego. A voz, por exemplo. Imaginem um rapaz que sonha ser locutor de rádio. Adulto, descobre que a sua voz, fina, não lhe permite tentar a carreira idealizada. Feliz daquele que desiste dos sonhos em face da cruel realidade. Alguém precisava aconselhá-lo a procurar urgentemente uma fonoaudióloga: a sua voz poderia ser um enorme obstáculo, mesmo se pleiteasse um emprego de auxiliar de portaria de edifício residencial.

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