Que Horror, Esqueci de Cobrar

Estávamos reunidos em volta da clássica mesa retangular com oito cadeiras. Antes de começarmos os trabalhos, uma consultora de treinamento comentou que costumava ministrar palestras fechadas nas empresas. Não cobrava por que achava incorreto já que era funcionária de uma estatal. Ponderei:

  • Mas você realiza essas palestras fora do expediente, trabalha inclusive aos sábados. Gasta tempo e energia preparando as aulas e em nada prejudica o seu empregador
  • O que posso fazer? Sou “caxias”.A empresa está a par de meu outro trabalho, já ouvi comentários, mas sabe como é, a chefia não faz concessões. Aliás, digo com sinceridade, nunca fui inscrita em nenhum curso  ou selecionada para qualquer plano de desenvolvimento de carreira.

Por coincidência, conheci também a Simone Lindt que, além de ter escrito alguns manuais de organização, dava aulas de aperfeiçoamento para instrutores de treinamento. Cobrava? Sim, por que tinha se organizado bem. Ministrava os cursos durante suas férias. Além de conceituada, colaborava para um maior conhecimento de sua empresa, no Brasil e no exterior.

Mais grave do que cobrar pouco é... esquecer de cobrar. Esta foi a minha perdição, por que daquela cartola nunca mais saiu nenhum coelho. Visitei uma agência americana de publicidade, conhecida no mundo inteira, no nível daquelas que estão sempre em qualquer premiação importante. Embora eu não trabalha  com pescados, nem em feiras livres, procurei vender o meu “peixe” ao Vice-Presidente, que me recebeu numa sala imponente, com uma vista deslumbrante da Baía de Guanabara. Fiz  tanto sucesso, transmiti tanta credibilidade, que recebi uma “,missão secreta” nos primeiros cinco minutos de conversa.

Como poderia desperdiçar aquela oportunidade? Esforcei-me, pesquisei, fiz entrevistas e colhi uma série de informações importantes. Preparei um relatório confidencial com os dados solicitados, primorosamente datilografado (usava-se máquinas eletrônicas), apresentado numa vistosa pasta azul de capa dura.

No dia combinado, toda sorrisos, confiante, entreguei o trabalho ao Vice que, imediatamente, mandou a secretária buscar um documento qualquer em outro andar só para não ter que lhe dar alguma explicação ou fazer algum comentário. Embora eu aparentasse segurança (pelo menos era o que pensei), o coração, de tanto bater descompassadamente, parecia que tinha saído do peito.

E o que fez aquele alto executivo? Leu o relatório atentamente, concordo com a cabeça e, tranquilamente, o retirou da pasta. Foi quando, sem dizer uma palavra, apanhou o seu isqueiro com monograma dourado, pousado disciplinadamente ao lado do cigarro, e... queimou os papéis, guardando a pasta. Fiquei muda: só tinha visto algo semelhante em filmes de guerra enfocando a ação da temida polícia secreta russa, a NKVD. Feito isso, o meu anfitrião sorriu, disse um sonoro “BOM”, sinônimo de quem se deseja se livrar de uma visita, e se levantou, dando a reunião por encerrada.

Levei alguns dias para me refazer. Lembrei-me, também, que horror, que os meus honorários não tinham sido acertados, pelo menos após a conversa preliminar sobre a “incumbência” Foi um lapso,  mas ignorava que trabalhava de graça. Tentei uma nova reunião, sem sucesso. Só conseguiu uma reaproximação... dois anos mais tarde, quando este assunto delicado não pôde ser abordado por que o Vice-Presidente preferiu conduzir a conversa para assuntos mais amenos. Quer dizer, se os honorários não foram acertados previamente, mais tarde nunca seriam pagos, mas será que ele pensou que sou uma profissional que adora fazer caridade para uma multinacional?

Fui ingênua sim e, rebelde, passei por outras situações parecidas. Hoje sei que é preciso cobrar, se possível honorários altos, embora sempre de acordo com o mercado. Não conheço nenhum sapateiro que deixe de cobrar pela colocação de sola inteira em seus sapatos de couro italiano ou mecânico de carro que faça um serviço gratuito no carburador, excedo quando o cliente é assíduo e... bom pagador.

Nos consultórios, os clientes ficam inibidos de pagar aos médicos. Pensam: “Como entregar o cheque (ou dinheiro) a um médico desse gabarito ? Há, há, como se ele não tivesse as suas despesas e interesse em ver o seu trabalho remunerado! Entre outras tarefas, as secretárias, atendentes e enfermeiras são contratadas também para evitas esse constrangimento. Assim, ao me despedir de meu médico no final de uma consulta não agendada,  quando não havia nenhuma auxiliar por perto, retirei um cheque do meu talão e disse, delicadamente:

  • O senhor pode preencher depois.
  • Leve o seu cheque de volta, não fiz nada.
  • Mas o senhor precisa comer.
  • É que estou de dieta.

Nos Estados Unidos, nenhum profissional recebe clientes que não paguem, pelo menos, os honorários iniciais. Dizem que tempo é dinheiro. Já o brasileiro, cordial, gosta de se relacionar bem com amigos, família e conhecidos. É o primeiro a dizer “Não tem importância” quando alguém mais franco comunica a sua dificuldade de honrar a dívida nos próximos cinco anos. Enquanto os inadimplentes não pagam )a Lei proibe que sejam envergonhados ou interpelados publicamente), e os honorários não são acertados, a faculdade dos filhos precisa ser paga, o condomínio exige a sua cota extra e se o prefeito e os vereadores resolverem aumentar o IPTU, o que se pode fazer? Ora, vire-se e pague, pois quem mandou você morar na Lagoa? 

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