TOMATES SECOS ITALIANOS

Jean Louis Cará chegou no escritório pisando firme. Mal sentou-se à mesa de trabalho, convocou uma reunião de emergência para corrigir o planejamento financeiro da semana anterior, que considerava inexequível. O olhar, firme, desafiador, convidava as pessoas a concordar que ele era o solucionador dos problemas mais complexos. Por isso, o staff devia se esmerar para corresponder às suas expectativas.

Seu estilo de trabalhar era dinâmico, direto, agressivo. A sua dignidade pairava acima de tudo; ele não compactuava jamais. Exigia muito de sua equipe porque era exigente consigo próprio e gostava do que fazia Semanas depois, Cará se demitiu. Como o presidente jamais aceitaria a verdade, usou uma boa explicação: os seus problemas familiares exigiam a sua atenção constante e, consequentemente, o afastamento da empresa.

Havia um motivo real. Percebera, subitamente, que dispunha de pouco tempo antes de ficar velho, mas onde estava a tal felicidade, agora que todos, os filhos e a esposa, dispensavam o seu apoio? Naquele dia, voltou para casa no final do expediente, o que não acontecia há muitos anos. Consultou o espelho. Viu a sua careca brilhando no escuro e observou os olhos sem viço e com olheiras profundas. Teve um insight e se imaginou no sítio de Paraguamirim Pequeno, montando a sua égua favorita, com o vento batendo no rosto, sentindo na alma a felicidade reencontrada. Viu-se conversando com os vizinhos, sem pressa, prioridades ou definição de metas. Pensou como aquele aventureiro que gritou, ao enfrentar uma tempestade violenta no mar, com a Dona Morte querendo abraçá-lo: "Meu Deus, o que estou fazendo aqui?"

Com passos ágeis, desceu ao primeiro andar de seu triplex e comunicou à família, sentada em torno da mesa - desse convívio diário ele fazia absoluta questão - que decidira recomeçar a vida, agora com mais simplicidade. A esposa protestou, logo agora, que estava indo tão bem na firma de aplicação de testes vocacionais. 0 filho mais velho, segundanista de engenharia, resmungou contra a eventual falta do provedor-mor, enquanto a caçula, do alto de seus 17 anos, apoiou o pai, mas avisou que, se for assim, preferia se mudar para a casa do namorado

As dúvidas devem ser enfrentadas para não sofrer a amargura de acordar para enfrentar um dia tão insípido como os anteriores. Há pessoas corajosas que viram a página e buscam seus ideais, como o casal de economista e engenheiro têxtil que largou tudo em São Paulo e se mudou para Recife onde abriu um negócio de fundo de quintal de tomates secos italianos. O negócio prosperou, o casal abriu uma firma, está feliz.

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